Bolsonaro muda núcleo de confiança após romper com aliados no governo e na Câmara

Com um temor recorrente de ser traído, o presidente Jair Bolsonaro se livrou de aliados de primeira hora, abandonou antigos amigos e alterou mais de uma vez seu núcleo de confiança no primeiro ano de mandato.
As mudanças, que atingiram nomes que tiveram atuação estratégica para a sua eleição, renderam a ele a fama no Palácio do Planalto de ser um presidente desconfiado e centralizador, com dificuldades de confiar em sua equipe de ministros.
Segundo relatos feitos por auxiliares presidenciais à Folha, o chefe do Poder Executivo cobra de todos o que considera gestos de fidelidade, como ser informado sobre agendas de ministros e ser defendido publicamente quando sofre críticas.
Nas palavras de um assessor palaciano, Bolsonaro segue à risca o lema: “Ou está comigo ou não está”.
O atual núcleo duro do presidente é formado pelos ministros da Secretaria-Geral, Jorge Oliveira, da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, e da Defesa, Fernando Azevedo.
Inicialmente homens de confiança do presidente e integrantes do seleto grupo, os ministros da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, e do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), Augusto Heleno, perderam influência sobre Bolsonaro.
O primeiro pode ser trocado do comando da pasta neste semestre. O segundo, após ter causado polêmica ao dizer que editar um “novo AI-5” exigiria estudos, submergiu. De acordo com assessores presidenciais, suas avaliações perderam força sobre as tomadas de decisão do presidente.
O empresário Paulo Marinho, ex-aliado de Bolsonaro, diz que a a família do presidente “sofre da síndrome da conspiração”. “Uma coisa que acompanha [o clã] a vida inteira. Eles desconfiam da própria sombra”, afirma. “Quem não está com eles, incondicionalmente, é visto como traidor”, completa.
O presidente também costuma testar a fidelidade de sua equipe ministerial. De acordo com assessores palacianos, além de pedir a mesma coisa para mais de um auxiliar, ele tem como hábito repassar uma informação a apenas um subordinado para testar se ele é foco de vazamento para a imprensa.
“Se todo mundo disser sim para mim, eu desconfio. É igual em casa, marido e mulher. Tudo ‘sim’ você fica desconfiado”, afirmou Bolsonaro em café da manhã no fim do ano passado.
Um dos casos emblemáticos do modo de agir de Bolsonaro foi visto logo nos primeiros meses de seu governo.
Em fevereiro, o presidente mandou áudio ao então chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, reclamando de audiência que o ministro teve com o vice-presidente de Relações Institucionais do Grupo Globo, Paulo Tonet Camargo.
A mensagem foi enviada quando Bolsonaro estava internado no hospital Albert Einstein, em São Paulo, após passar por uma cirurgia de ligação do trânsito intestinal, em decorrência da facada sofrida durante a campanha.
O executivo já havia se reunido com outros ministros palacianos, mas, nos episódios anteriores, de acordo com relatos de assessores, o presidente tinha sido avisado, o que não gerou desconforto.
Bolsonaro também se incomodou com o que auxiliares presidenciais chamam de “postura independente” do ex-ministro da Secretaria de Governo Carlos Alberto dos Santos Cruz.
Responsável pela interlocução com entidades sociais, ele recebeu no gabinete ministerial representantes de organizações como Igarapé, Sou da Paz e Fórum Brasileiro de Segurança Pública, contrárias à flexibilização do porte de armas, bandeira eleitoral do presidente.
Os dois ministros, que foram exonerados após desconfiança de Bolsonaro, faziam parte do primeiro núcleo duro do presidente, que sofreu mudanças ao longo do ano.
Na campanha eleitoral, Bebianno era considerado o braço direito de Bolsonaro e foi responsável por viabilizar uma aproximação dele com o meio jurídico e com veículos de comunicação.
“Não vi em nenhum desses que saíram motivos relacionados a infidelidade. Discordar e tentar assessorar corretamente não significa ser infiel”, avalia o senador Major Olimpio (PSL-SP).
“No dia a dia, se cria empatia ou antipatia e, diante do segundo quadro, o presidente entendeu por fazer substituições”, afirma.
Além de Bebianno, outros dois aliados de primeira hora, peças-chave da campanha eleitoral à Presidência, foram esquecidos.
Marinho, que emprestou sua residência, no Rio de Janeiro, para reuniões da candidatura presidencial, não foi alçado ao núcleo de poder.
Além de ser palco de encontros de coordenação política, a casa se tornou um estúdio improvisado para gravação dos programas de TV de campanha. Na reta final, Bolsonaro costumava ir ao local quase diariamente.
Apesar da proximidade, o empresário, que é suplente do senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), um dos filhos do presidente, não foi convidado para a cerimônia de posse em Brasília.
“Movido por essa síndrome de conspiração, ele acredita que todos são traidores. Não cultiva nenhum sentimento de gratidão”, diz Marinho.
“Por isso essa dificuldade que ele tem de transitar no Congresso, pela dificuldade que ele tem com aliados. Ninguém confia”, afirma.
O ex-senador Magno Malta, que foi cotado para ser vice de Bolsonaro e ajudou a arregimentar apoio entre eleitores evangélicos, também ficou sem cargo ministerial, apesar de o presidente ter acenado, antes de assumir o Palácio do Planalto, que lhe entregaria o comando de uma pasta na área social.
Malta também não compareceu à posse e nunca mais foi visto em Brasília nos arredores do presidente.
No Poder Legislativo, após a crise com o PSL, Bolsonaro rompeu definitivamente com os deputados federais Joice Hasselmann (PSL-SP) e Delegado Waldir (PSL-GO), que atuavam como seus interlocutores na Câmara. Em privado, refere-se a ambos como “traíras”.
A desconfiança permanente remonta ao tempo do serviço militar.
Segundo velhos aliados, Bolsonaro tinha como hábito olhar embaixo do carro para checar se alguém poderia ter instalado uma bomba na tentativa de um atentado.
No Palácio do Alvorada, com receio de ser grampeado pela sua própria equipe, ele evita ter conversas de caráter reservado na área externa da residência oficial. Para assuntos sigilosos, prefere a área privativa, onde instalou uma espécie de escritório vizinho ao dormitório presidencial.
Apesar da cautela, Bolsonaro já teve conversas suas gravadas. O caso mais recente foi em outubro, quando ele negociava a retirada de Waldir da liderança do PSL na Câmara.
O GSI, responsável pela segurança presidencial, já tentou por diversas vezes demover Bolsonaro da ideia de usar o WhatsApp como ferramenta de comunicação institucional, mas ele insiste.
Procurada pela Folha, a pasta afirma que Heleno “jamais se preocupou” com uma eventual perda de influência e ressalta que a reportagem não é “a pessoa abalizada para fazer essa avaliação”.
“Só posso dizer que o presidente não aceita infidelidade. Até mesmo porque ele joga muito aberto e sincero com todo mundo”, disse o ex-deputado federal Alberto Fraga (DEM-DF), amigo dele de longa data.
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Sobre Bahia Extra

Melhor Site de Notícias da Bahia. Direção Erasmo Barbosa.

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